domingo, 29 de janeiro de 2012

DO REINO DAS NEVES PARA A LIBERDADE


Autor: Stephan Talty

Título original: Escape from the Land of Snows



Sinopse: Do Reino das Neves para a Liberdade traça um retrato completo e real de Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, durante os seus anos de juventude, e acompanha a sua dramática fuga para o exílio. Rigorosamente enquadrada no contexto histórico, social e político, esta obra de Stephan Talty lê-se como uma grande aventura épica, que culmina na perigosa fuga do jovem Dalai Lama através dos Himalaias até chegar à liberdade do outro lado da fronteira com a Índia, onde se instalou para assegurar a perpetuidade de uma nação, cuja história se confunde com a do próprio Budismo.

O que mais apreciei neste livro é a sua visão global da invasão chinesa a um país “afastado” do resto do mundo e que à primeira vista não é mais do que um aglomerado de enormes montanhas. Quando peguei no livro tinha algum receio que o livro se centrasse apenas na viagem de Dalai Lama e está aí a grande surpresa e também o grande trunfo deste livro na minha opinião. Não se centra apenas na viagem.
Talty começa o livro com uma interessante apresentação do país e sua cultura, da sua história e cheio dos mais diversos pormenores que não sendo essenciais para a história, gostei imenso de os ler também para entrar melhor na mentalidade tibetana.
De seguida começamos com a procura pelo novo Dalai Lama e o ritual pelo qual é escolhido, também bastante interessante e prosseguimos pelo seu crescimento enquanto recebemos cada vez mais informações sobre o pais e também sobre como os outros países olhavam para o Tibete: a China como uma afirmação política e estratégica, tanto em termos geográficos como de propaganda; os Estados Unidos como uma hipótese para algo que ao início nem sabem bem o que poderá ser, e a Índia que tenta não tomar partido e ser “esquecida”.

Com uma escrita que nunca foi cansativa para mim, Talty mostra uma boa capacidade de organizar toda a informação e não se perde em enormes descrições que poderiam matar o livro. Esta boa organização leva-nos a um olhar fascinante sobre a religião do Tibete e seus ensinamentos, mas também sobre a espionagem de vários países, o que cada um tentou manipular. O facto de alguns capítulos estarem recheados de depoimentos de agentes da CIA ajuda a termos uma ideia dos interesses e também das expectativas do ocidente contra a evolução dos países comunistas do oriente.
Muito bem descrita, e por vezes arrepiante é a propaganda que os chineses implementaram para o exterior mas também para os próprios chineses, a forma como ocultaram os massacres e como todos tentaram manipular a noção que o mundo tinha em relação ao que acontecia.

Este é um livro que mostra como uma situação extrema altera uma pessoa. O Dalai Lama que era apenas um rapaz, com uma infância solitária, indeciso e ingénuo sobre as verdadeiras intenções da China e dos acordos propostos, até se tornar num homem que conhecemos, admirado e respeitado. Não é preciso viver uma situação extrema durante muito tempo para se crescer e aprender algo e os tibetanos não precisaram de muito tempo para aprender nem para se ajustarem a uma nova realidade, evoluindo para garantirem a sobrevivência. Como os próprios tibetanos dizem, o inimigo pode ser o melhor professor, e tal está muito bem descrito no livro. E aos poucos, enquanto percebemos que o mundo ocidental olha para o Dalai Lama como um simples rapaz, a China olha-o como uma ameaça e o Tibete olha-o com uma esperança transformada em força, algo simplesmente incrível e que só se consegue numa sociedade onde existe uma mentalidade enraizada e muito forte. O poder da fé é constante, sempre presente. No fim este livro é sobre mais do que uma viagem do Tibete até à Índia. É a própria aprendizagem de um homem a quem pediram para ser líder de um povo atacado, quando tinha idade para brincar, não para decidir.
Outro aspecto que me agradou foi a narrativa nunca ter “deixado” o Tibete, mesmo quando o Dalai Lama o fez, oferecendo assim uma imagem sobre quem ficou, a forma como um povo foi preso e massacrado num país fascinante e para o qual todos devêssemos olhar um pouco e captar o que nos pode ensinar.
Uma obra muito interessante para quem apreciar este género de livros, bem organizado, com um excelente contraste do Tibete de 1950 até ao actual, e muitas curiosidades interessantes (fiquei a saber que o primeiro explorador ocidental a chegar ao Tibete foi o Português António de Andrade). Um livro que se torna na viagem, na vida do Dalai Lama, nas suas aprendizagens e no porquê das suas decisões.

Devo dizer que o mundo é um lugar escuro e perigoso e que a desumanização do homem fez progressos terríveis. Do sítio onde me encontro testemunho o que  tem de pior – nações de formigas guerreiras cegas em formação e o mundo da moralidade e da razão a ser lentamente reprimido.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Divulgar três blogs

Hoje trago-vos os endereços de 3 blogs que decidi divulgar aqui no meu espaço e que merecem ser visitados!

http://ccd-nortesul.blogspot.com/ - O novo blog de um clube de Judo na Margem Sul. Se gostarem da modalidade e/ou quiserem colocar as vossas crianças a praticar desporto, este é um bom endereço a visitar!

http://gatapreta-artesanato.blogs.sapo.pt/ - Um blog com as mais variadas peças de artesanato, ideal para quem procura bijuteria, crochet, pinturas, etc... Há por aqui boas prendas!

http://www.cronicasobscuras.blogspot.com/ - E como não podiam faltar os livros, fica aqui o endereço do blog sobre o mundo literário de Crónicas Obscuras. Se estiverem interessados é aqui que encontram o essencial sobre estes livros!


Espero que visitem estes endereços e que gostem! A mim não me custou nada divulgá-los, por isso se gostarem façam o mesmo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

AS MENTIRAS DE LOCKE LAMORA


Autor: Scott Lynch

Título original: The Lies of Locke Lamora


Diz-se que o Espinho de Camorr é um espadachim imbatível, um ladrão mestre, um amigo dos pobres, um fantasma que atravessa paredes. De constituição franzina e quase incapaz de pegar numa espada, Locke Lamora é, para mal dos seus pecados, o afamado Espinho.


Após muitas pessoas me recomendarem este livro, decidi lê-lo e em boa hora o fiz, porque se trata de um livro que irá agradar à grande maioria dos leitores que apreciem o género fantástico e eu não fui excepção.
Para mim este livro tem simultaneamente um defeito e uma virtude: concentra-se demasiado na história. Tentarei explicar este meu pensamento começando pelos defeitos do livro que na minha opinião são dois: primeiro o mundo criado por Lynch é bom, uma espécie de Veneza do séc XV (ou algo parecido, não sou historiador) claramente marcada pela corrupção. Um mundo diferente da grande maioria dos livros que tenho lido, com curiosidades que ficam na memória, e uma estrutura social que consegue apoiar os acontecimentos da obra. Mas este livro merecia mais, não por este “mundo” ser mau, mas porque a história é realmente muito boa e então senti que queria saber mais sobre este mundo, mas essas páginas não apareceram. O segundo defeito é a falta de conhecimento que temos de algumas personagens. Uma vez mais, tal como em relação ao “conhecer o mundo da história”, o livro está tão centrado no que acontece, que algumas personagens que são importantes acabam por não ter o seu “espaço” nestas páginas, e ficamos com a sensação que não as conhecemos realmente. E estes são para mim os únicos dois defeitos do livro, mas que acabam por ficar na sombra da qualidade do mesmo. Porque acontecem estes dois "defeitos"? Se tivermos em conta que a história é enorme, seria difícil inserir mais informação num só livro, mas mesmo assim gostava de ter lido mais principalmente sobre algumas personagens que apreciei.

Como disse antes, o grande trunfo deste livro é centrar-se na história, e aqui temos um livro vencedor! Com uma fantasia diferente do usual, capaz de agradar aos mais diversos leitores, Lynch dá-nos uma narrativa interessante, com flashbacks que se apresentam como um ponto alto e de enorme importância para percebermos a história. O ritmo é alto do início ao fim, mas ganha um novo vigor a meio do livro, quando o enredo se começa a revelar, e é neste momento que ficamos definitivamente agarrados ao livro.  
Bons diálogos que ajudam ao ritmo da história e a prender o leitor, momentos divertidos, uma sensação de amizade sempre presente entre as personagens e uma boa dose de mistério, fizeram com que esta leitura nunca fosse aborrecida e a mim viciou-me imenso!

Locke Lamora é obviamente a grande personagem deste livro, criando os grandes momentos, mostrando como a força da amizade é importante neste livro, e desde cedo o leitor recebe a ideia que Lamora é um rapaz com uma capacidade enorme de improvisação e manipulação, conseguindo que pessoas e acontecimentos revertam sempre a seu favor. Esta ideia que se cria é bem sustentada, aumenta a qualidade da história, mas no fim gostava de ter visto Lamora mais surpreendente no seu engenho sem notar alguma sorte à mistura. Gostava de o ver descobrir e "desenvencilhar-se" de tudo apenas com os seus planos! Um pequeno desalento mas que em nada me estragou o prazer de ter lido este livro.

Com uma história muito boa, que oculta os restantes componentes do livro, sem que esses componentes sejam maus, longe disso; uma personagem principal que acabamos inevitavelmente por gostar mesmo que não apreciemos as suas acções; este é um livro que consegue ganhar muitos aplausos e acima de tudo trata-se de um autor que consegue na sua estreia ganhar o seu espaço neste género literário. Uma boa diversificação de personagens, vilões que me preenchem as medidas em alguns aspectos e acima de tudo devo dar os parabéns a Lynch (não que os meus humildes parabéns tenham qualquer tipo de "peso") por ter arriscado no seu primeiro livro com acontecimentos que poderiam afastar um ou outro leitor mas que na realidade só elevam a qualidade da história.
Este livro não será certamente uma obra-prima, mas é um livro que deve ser lido, e muito provavelmente relido, eu pelo menos um dia irei fazê-lo! Aconselho-o a todos os que gostem deste género literário e só não foi uma enorme surpresa para mim porque as expectativas já estavam bastante altas graças ao Paulo Dores. Recomendado!

Devo ainda dizer que apesar de pertencer a uma série de livros, este primeiro volume tem uma história completa, não existindo a necessidade de ler os restantes livros para sabermos como termina esta primeira aventura. No entanto eu quero ler mais, muito mais sobre este Locke Lamora!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PASSATEMPO: A Estrada

PASSATEMPO!

O Blog Ler y Criticar vai oferecer um exemplar da obra A Estrada de Cormac McCarthy, vencedor do Prémio Pulitzer com este fascinante livro!


Para te habilitares a ganhar basta seres fã no Facebook e/ou seguidor do nosso blog na Google Rede Social!

É só clicar no "like" ou no "aderir a este site" aqui mesmo ao lado! 

O Passatempo acaba dia 31 de Janeiro, sendo de seguida sorteado o vencedor e anunciado o seu nome! Será então pedido ao vencedor que envie um mail com os seus contactos para a entrega do livro! O passatempo será apenas para Portugal Continental e Ilhas!

Como podem ver, basta um clique para poderem ganhar este fantástico livro (está aqui a minha opinião já publicada)

Desde já boa sorte a todos!
Espero que gostem deste passatempo e obrigado por seguirem este "jovem" blog!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A TOUPEIRA


Autor: John le Carré

Título original: Tinker, Tailor, Soldier, Spy


O primeiro livro da trilogia de Smiley contra Karla, a série que o tornou famoso em todo o mundo e consagrou John le Carré como um dos grandes mestres da literatura de espionagem.
Smiley e a sua gente deparam-se com um extraordinário desafio: uma toupeira, um agente duplo dos soviéticos conseguiu infiltrar-se e ascender ao mais elevado nível dos Serviços Secretos britânicos. A sua traição comprometeu já algumas operações vitais e as melhores redes.
A toupeira é um dos seus. Mas quem?


Sou um fã de espionagem, o género que leio mais a seguir a literatura fantástica. Sendo assim o nome de John le Carré estará sempre entre os meus autores favoritos, até hoje nunca me desiludiu e tenho o seu livro "O Espião que saiu do Frio" como um dos melhores livros que alguma vez li.
Neste livro, um dos seus mais aclamados, e o início da trilogia que coloca “frente a frente” Smiley e Karla, Carré mantém o seu estilo e ambiente característicos. Aqui os agentes secretos não são vistosos, não usam potentes carros, não existem bond girls. Não há tiroteios desenfreados, nem fantásticas perseguições… aqui a espionagem não é feita com tiros. É feita com palavras, com olhares, com enormes e subtis jogos de interesses… entrando neste “tipo” de espionagem, o oposto da vulgarmente vista nos filmes, Carré dá-nos uma atmosfera perfeita da Guerra Fria enquanto descreve de forma detalhada, e não cansativa para quem goste do género, as acções das personagens, pensamentos, receios e truques do mundo da espionagem. Posso mesmo dizer que se aprende com os livros de Carré. 

The more identities a man has, the more they express the person they conceal.

Com um ritmo que começa lento e acelera de forma constante até ao fabuloso final, Carré tem uma escrita que nos oferece tudo, mas nem sempre nos diz que devemos tomar atenção, e então falta-nos a capacidade para ver o detalhe que faz a diferença, porque aqui tudo conta. O ritmo lento faz-nos pensar, é bem conseguido e promove o mistério de cada personagem, e esse é um dos grandes trunfos de Carré. Cada personagem consegue ser misteriosa. Nós sabemos que existe ali um segredo!
Pelo meio um conflito amoroso que se torna em algo que tenta destruir o interior de uma pessoa, numa história que ajudou a redefinir a literatura deste género, ajuda a aprofundar ainda mais o nosso conhecimento da mente de Smiley, que se mostra como um homem fascinante e na personagem mais marcante de um excelente trilogia.

Survival...is an infinite capacity for suspicion.”

Um livro cheio de amizade, amor, traições e receios. Um medo que se consegue cheirar, a incrível sensação que nunca estamos seguros. Há sempre alguém a ver… um enredo inteligente, cheio de classe… este livro é uma fantástica e lógica partida de xadrez. Uma obra que poderá afastar quem desejar um ritmo alto na leitura, mas que será certamente um livro marcante para quem o leia.
Mais um excelente livro de um dos melhores autores do nosso tempo e que apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, trata-se de uma obra que se lê sem necessidade de continuação. Cada livro de Carré conta uma história e não existe uma necessidade óbvia de ser ler os outros livros nem de forma cronológica.

God is in his Heaven and the first night was a wow.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

OS REINOS DO CAOS


Autor: George R. R. Martin

Título original: A Dance with Dragons


Mata o rapaz, Jon Snow.

Não há volta a dar. Quanto maior a espera, maior a expectativa. Mas todo o barulho e expectativa criados à volta deste livro seriam mais do que suficiente para matar muitas obras literárias. Será que os Dragões sobrevivem aos exigentes fãs?

Em primeiro lugar começo por dizer que este é para mim o melhor livro desde que saiu A Glória dos Traidores, mas no fim percebemos que é um livro que viverá à sombra de outros da série.
O que tornou esta série tão boa foram as personagens criadas por Martin, realistas e que sustentam a intriga, e os acontecimentos, alguns de enorme risco para o autor, que se desenrolaram nos primeiros seis livros (versão portuguesa). Nos livros seguintes, talvez por estarem divididos geograficamente, senti que enquanto toda a qualidade dos diálogos, intriga, e capacidade para ligar tantas personagens, se mantinha alta, mas a história alongava-se demasiado, baixando muito o ritmo. Este livro, pelo qual muitos esperaram muitos anos, vive na sombra de anteriores livros porque não aumenta o ritmo como todos queríamos. Bastava olhar para o título “A Dance with Dragons” para começarmos a imaginar tudo o que Martin poderia escrever, mas a realidade é que o ritmo não é o que desejamos.Nós fomos habituados ao melhor e queremos o melhor!

Por outro lado foi um livro que gostei bastante por perceber como encaixou bem com o 7º e 8º livro, e nesse aspecto ter lido todos de seguida (em vez de ter esperado anos por este como muitos outros leitores) ajudou a perceber o que poderá falhar a muitos. Há realmente muitas ligações. Para além disso, devo dizer que a escrita de Martin se mantém fiel ao que sempre foi. Forte, sem abuso de descrições, com tendências para flashbacks interessantes e com uma enorme parte da sua escrita a revelar os pensamentos das personagens que seguimos. Continua tudo no ponto!
No entanto o enorme mundo criado pelo autor não ajuda muito neste livro, pois ficamos perante um “talvez demasiado vasto” número de personagens pelas quais vemos a história, todas elas dispersas pelo mundo de Martin e como tal as suas acções não vão encaixar imediatamente, dando a ideia que não existe uma continuidade palpável de um capítulo para o outro. É preciso ler bastante para sentirmos a movimentação do enredo. Houve ainda uma ou outra personagem com capítulos que, agora após ler o livro, parecem que pouco ou nada deram à história, e só nos próximos livros o irei saber. Percebo que “está ali” uma trama, mas não sei até que ponto seriam necessárias tantas páginas para o fazer. Mas não é isso que estraga o livro, pois dois ou três capítulos em tantos não se notam muito.

Num livro onde Jon Snow é o grande motor, com vários capítulos a partir dos seus olhos, e todos eles de grande qualidade, vemos ainda o regresso das personagens do e 8º livro, por isso preparem-se porque voltaremos a ver Jaime e Cersei lá mais para o fim, com acontecimentos que já nos fazem desejar o próximo livro! Outro personagem que mantém o seu nível é Tyrion e não vale a pena falar muito sobre o anão. Ele é a prova que a escrita de Martin se mantém coerente em relação às personagens e Tyrion dá espectáculo nas suas falas como sempre!

O meu nome é Cheirete, rima com tapete.

Tal como disse, este livro viverá à sombra de livros anteriores, como A Muralha de Gelo ou A Glória dos Traidores, mas dentro do próprio livro poderei dizer o mesmo. Todo o livro viverá na sombra dos últimos capítulos, pois se Martin passa a grande maioria do livro a não oferecer aquilo a que nos tem habituado (aqueles capítulos que recordamos para sempre), preparam-se pois a última centena de páginas deixa aquela sensação que poderemos estar a ver o despertar daquele autor que tantas vezes nos deixou de boca aberta. O livro é grande, e por vezes não nos puxa tanto como gostaria (um fã quer sempre mais) e também é verdade que não existe em alguns capítulos aquela sensação de falta de ar, mas no geral continua a ser "Martin" com a sua escrita que agarrou tantos leitores e a única questão na minha mente é se no futuro Martin terá a capacidade de arriscar com acontecimentos que marquem a série como outros momentos já o fizeram. Entretanto este será o livro que voltarei a ler antes de Martin voltar com uma obra nova e certamente continuará a ser uma boa leitura, pois estamos realmente perante um bom livro que tem 5 ou 6 momentos de grande qualidade. Eu apenas queria mais!

Martin tem agora dois livros para deixar definitivamente a sua marca no mundo da literatura fantástica e só espero que não demore muito a fazê-lo, porque o final deste livro deixou-me uma enorme vontade de continuar!
Um livro que li em poucos dias, uma sensação de que o melhor está para vir… agora é esperar por mais.

Não sabes nada, Ygritte.

Espaço ainda para notar que a capa deste livro está novamente muito boa e que apresentar os verdadeiros símbolos das casas lhe dá um novo toque de qualidade!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ANJOS E DEMÓNIOS


Autor: Dan Brown

Título original: Angels and Demons

Quando um famoso cientista do CERN é encontrado brutalmente assassinado, o professor de simbologia Robert Langdon é chamado para identificar o estranho símbolo gravado no peito do cientista. A sua conclusão é avassaladora: a marca é de uma antiga Irmandade chamada Iluminatti, supostamente extinta há séculos e inimiga da Igreja Católica. Em Roma, o Colégio dos Cardeais está reunido para eleger um novo Papa quando se apercebe do rapto de quatro cardeais, ao mesmo tempo que a Guarda Suíça é informada de que uma perigosa arma está na Cidade do Vaticano com o propósito de a destruir. Robert Langdon - quem não o conhece? - ajudado desta vez por Victoria Vetra, cientista do CERN, procura desesperadamente a antimatéria no meio das intricadas pistas deixadas pelos Iluminati, lutando contra o tempo para salvar o Vaticano.

Anjos e Demónios é para mim o melhor livro de Dan Brown. Foi o primeiro que li do autor, marca o início das histórias de Robert Langdon e lê-se à velocidade da luz. Claro que este livro não é certamente uma obra prima, mas isso também nunca terá sido o objectivo do autor. Dan Brown escreve para entreter, para viciar, e olhando para as vendas, podemos dizer que o faz com enorme sucesso.
Tal como em O Código da Vinci, o grande impulsionador da fama de Brown, para o bem e para o mal, este livro tem a mesma fórmula, fórmula essa que muitos escritores têm vindo a copiar nos seus livros, e se em termos de vendas até tiveram sucesso, na qualidade nem por isso. Capítulos curtos onde nem tudo é revelado, pequenas pistas que nem sempre nos levam no caminho certo, um tema empolgante investigado pelo autor e revelado de forma a promover não só a espectacularidade mas também a veracidade das suas palavras. Personagens enigmáticas e sérias, onde nos é dado a entender que escondem algo, e uma tentativa, por vezes bem sucedida de nos fazer olhar para um lado à procura do culpado, quando ele está no lado oposto.
Outro grande ponto a favor dos livros de Dan Brown é a forma como o autor descreve os cenários. Não se limita a descrever os cenários, mas sim a explicar, a contar historias, e uma vez mais a introduzir o cenário na trama central do livro por forma a aumentar a veracidade das suas palavras, envolvendo ainda mais o autor. 
Uma vez um amigo (o Sabicho) disse-me que visitar Roma após ler este livro seria fantástico. E eu confirmo. Voltei a ler este livro antes de fazer um interrail no qual visitei Roma e  foi uma sensação fantástica. Só por isso já teria valido a pena ler o livro.

- A religião é como a linguagem, ou a maneira de vestir. Somos atraídos para as práticas em que fomos educados. No fim, porém, todos proclamamos a mesma coisa. Que a vida tem significado. Que estamos gratos ao poder que nos criou.
- O que está a dizer, então, é que sermos Cristãos ou Muçulmanos depende apenas do lugar onde nascemos?
- Não é óbvio? Veja a difusão da religião no mundo.
- A fé é então aleatória?
- De modo nenhum. A fé é universal. Os nossos métodos específicos de entendê-la é que são arbitrários. Alguns de nós rezam a Jesus, outros vão a Meca, outros estudam partículas subatómicas. No fundo, andamos todos simplesmente à procura da verdade, uma verdade maior do que nós.  

Dan Brown, tenta, de forma a prender-nos ainda mais ao livro, levar-nos a acreditar que todos os seus factos são verdadeiros, e é esse o problema em que alguns leitores caiem. Os seus livros são livros de ficção, não documentários, como tal devo olhar para o livro como ficção que é. Claro que se todos olhassem para o livro desta forma, o Código da Vinci não teria tido metade da polémica, e consequentemente metade das vendas. Existe obviamente veracidade em muito da sua investigação, mas muito não é tudo e o leitor terá de ser capaz de perceber a diferença. porque o faz o aturo? Porque todos nós adoramos conspirações, mas se elas parecerem mesmo verdadeiras, ainda gostamos mais. Dan Brown escreve o verdadeiro blockbuster literário, é esta a sua especialidade. A capacidade de escrever quinhentas páginas que se passam no espaço temporal de um dia e nós não conseguimos parar de ler. Brown nunca irá ganhar o Nobel da Literatura, mas o objectivo dos seus livros também não é esse. O objectivo é o que realmente ele consegue: viciar qualquer leitor que não leia estas páginas já com o preconceito Dan Brown que se criou. Claro que nesta opinião falo sempre na generalidade dos leitores. 

Este é para mim o melhor de Dan Brown primeiro porque o tema está bem explorado: a rivalidade entre Religião e Ciência, onde podemos ver os dois pontos de vista, apesar de esses pontos de vista serem projectados consoante a própria historia e personagens, está bem conseguido. De realçar ainda a investigação sobre Roma, os seus monumentos e toda a arte (pinturas, esculturas, etc…) necessária ao desenrolar da intriga. Tal investigação é a grande base do livro e é este ponto em que Dan Brown é melhor do que outros autores que o tentam imitar. Brown consegue criar “factos” que encaixam no que realmente existe. Quem tenha visitado Roma após ler o livro perceberá que certamente não foi fácil “arranjar” todo um “caminho Illuminati”, simplesmente a partir de estátuas de alto e baixo-relevo e ainda escrever poemas que contêm todas as pistas para o desvendar dos segredos.

Espaço ainda para rapidamente dizer que as personagens são bem conseguidas, apesar de nenhuma ser extraordinária, mas a historia com a sua trama não necessita de uma grande personagem. A trama é boa e envolvente, falando de temas actuais enquanto nos explica algumas verdades que poderemos não ter conhecimento. O ritmo é rápido desde o início, terá momentos em que torcemos ligeiramente o nariz com alguns acontecimentos, mas não paramos de ler e vemos o ritmo aumentar cada vez mais até ao fim.

Como já disse antes, este é para mim o melhor livro de Dan Brown. Não só porque tem um tema que aprecio, mas também porque é o início da sua fórmula. Nos seus próximos livros, a fórmula começa a repetir-se, principalmente na tentativa de nos levar sempre a acreditar que o inocente é culpado e vice-versa, mas isso fica para as próximas opiniões. Para já devemos ter em mente que esta obra não é um clássico. É um livro para ler com descontracção, sem complexos, para momentos em que queremos leituras leves. Se conseguirem então esta leitura não será uma experiência única, mas será agradável e é muito provável que não consigam parar de ler. Um livro fácil de ler.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MONEYBALL: The Art of winning an Unfair Game


Autor: Michael Lewis



Este livro, agora adaptado ao cinema com a interpretação de Brad Pitt, retrata a história verídica de Billy Beane, General manager da equipa de baseball Oakland Athletics. Após passar ao lado de uma promissora carreira enquanto jogador, Billy tem agora o sonho de conquistar o campeonato como manager, deixando o seu nome na História do desporto. Mas o que não tem é dinheiro. Gerindo a segunda equipa com menos orçamento da liga, Billy irá pôr em causa toda a teoria e preconceitos deste desporto na tentativa de criar o milagre, vencer a liga sem dinheiro.
Mas conseguirá?

Li este livro há pouco tempo, em inglês (não foi publicado no nosso país), por três motivos: primeiro porque sempre gostei de baseball e só não é um desporto que sigo com regularidade porque ou o faço pela internet ou de outra forma é impossível no nosso país. Em segundo porque se trata de uma historia verídica e terceiro porque ouvi falar na adaptação cinematográfica.
Para quem gostar de baseball este será certamente um excelente livro, mas quem não for também conseguirá tirar prazer desta leitura porque este livro não é sobre o desporto em si, mas sobre o que os move e as mentalidades que o suportam. Billy conhece-as e sabe que é uma luta injusta... Afinal de contas todos os desportos que movimentem toneladas de dinheiro são desportos injustos porque uns terão sempre mais do que outros para alcançar o objectivo. O baseball não foge à regra e nestas páginas iremos ver a enorme “ginástica” feita por este manager na tentativa de rentabilizar o orçamento.

O que difere esta história de muitas outras é que Billy tenta introduzir na gestão da equipa (principalmente na escolha dos atletas), conceitos científicos que têm por base a estatística da performance dos atletas. Pela frente terá o apoio de alguns mas principalmente o preconceito e atrito de outros. Um desporto estudado e "massificado" há décadas não está preparado para ver tal alteração de mentalidade e as pessoas que nele trabalham não conseguem ver que algo de diferente pode ter resultados.
O que me agradou neste livro foi o risco que Billy tomou. Contra todos os que lhe disseram que tal gestão não daria resultados, este manager percebe que algo tem de mudar para vergar a injustiça dos orçamentos, mesmo que vá contra os outros olheiros que acreditam mais na sua experiência do que na estatística.Todas as mudanças, sempre foram e sempre serão, olhadas com desconfiança até conseguirem dar resultados.

Sendo um livro de baseball, provavelmente nunca será publicado no nosso país e deverá passar ao lado da esmagadora maioria dos leitores, mas esta é uma obra que pode ser lida sem a necessidade de conhecer minimamente o desporto, nem de perceber algo sobre estatística. E porquê? Porque este livro é sobre o risco, a tentativa de mudar e não ceder às pressões. É no fundo uma história inspiradora de alguém que arriscou em algo que acreditava, pondo em risco a sua vida financeira e conseguiu ter sucesso, e portanto acho que deve ser lido por quem quer que se interesse por estes temas. Um bom livro dentro do género.  

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

HARRY POTTER e o Príncipe Misterioso


Autor: J. K. Rowling

Título original: Harry Potter and the Half-Blood Prince


Após ler o quinto livro da saga, que já disse ser o que gostei menos, as minhas expectativas estavam mais baixas, e porquê? Porque Rowling criara, nos primeiros 4 livros, uma personagem fantástica (para além de muitas outras coisas), chamada Dumbledore. A genialidade desta personagem é no entanto posta em causa no quinto livro, pois deixa de ser coerente com os livros anteriores. Este é um problema usual principalmente na literatura fantástica: um autor cria uma personagem, que com a sua genialidade, que se funde com o próprio autor na capacidade de alterar a historia. Mas o que faria agora Rowling? A verdade é que surpreendeu e se me perguntassem quando comecei a ler esta saga, se Rowling poderia chegar a este nível, eu não acreditaria.

Qualquer pessoa coerente, quer goste ou não deste género de leitura, conseguirá ver pequenos toques de génio, principalmente quando lemos o livro novamente ou quando lemos o livro seguinte da saga e percebemos como simples falas se encaixam no que está para vir.
Este livro é mais do que o fantástico mundo onde se desenrola, é mais do que os momentos de alegria e de tristeza, e sim, é difícil não rir com os comentários de Luna, com as parvoíces de Ron e com a indignação de Hermione. Este livro é ainda muito mais do que a personagem Harry Potter, com a história a ser muito menos centrada no feiticeiro e muito mais no que torna este livro fantástico: na compreensão dos motivos, no que empolga cada personagem. Se esta saga é movida pela luta do bem contra o mal, é neste livro que percebemos o porquê das mais importantes personagens. É neste livro que vemos Voldemort não como o temido vilão, mas como pessoa. Rowling mostra-nos a evolução do temido feiticeiro e este é o grande feito deste livro.

Rowling consegue, nos poucos capítulos em que Harry vê o passado de Voldemort, mostrar tudo o que é importante para percebermos o que está a ser feito há anos nesta luta de bem contra mal. Os diálogos entre Dumbledore e Voldemort são quase perfeitos, ajudando a perceber algo mais do que apenas a própria conversa, os acontecimentos descritos têm todos um significado que o leitor deve captar para conhecer Voldemort, e estes momentos fazem com que este livro, quer se goste ou não deste tipo de leitura, seja um livro memorável. São muito poucas as sagas, que após 5 livros escritos, conseguem mostrar, desenvolver e revelar questões tão significativas de personagens principais, e nestas páginas Rowling catapulta o leitor para o último livro com um entusiasmo que poucas sagas conseguem.

Em termos gerais este é o meu livro preferido da série. O explorar do passado de Voldemort está escrito de forma perfeita e cada linha está onde deve estar. Os momentos de descontracção continuam presentes, há momentos de verdadeira alegria mas o livro continua (tal como toda a saga) a tornar-se cada vez mais negro, com questões a levantarem-se, principalmente graças à identidade do Príncipe Misterioso. Os outros factores, sempre importantes nesta saga permanecem com qualidade, pois tanto as personagens continuam ao nível que Rowling nos habituou, como as suas invenções se enquadram perfeitamente na história, sendo que o Pensatório, os Horcruxes  e a Poção Felix Felicis são de enorme importância.
As novas personagens também conseguem ganhar o seu espaço, tornam-se todas mais maduras, mas uma vez mais é preciso perceber que este livro é sobre Harry, Dumbledore e Voldemort.

Tempo ainda para dizer que este é o livro onde inevitavelmente a autora nos obriga a comprar Harry Potter e Voldemort, desde crianças até agora. Tal comparação ajudará no próximo livro. Também outro factor importante é o de percebermos que tudo conheçou com uma escolha. Voldemort escolheu, graças a uma profecia, um rapaz chamado Harry Potter. Tudo começa com uma escolha e toda esta saga se move pelas escolhas de três ou quatro personagens. A escolha é tudo.
Mas ainda mais importante é a forma como Dumbledore nos fala de Voldemort, como comenta as suas acções, ensinando-nos o importante para percebermos o desfecho da saga e para conseguirmos perceber as diferenças entre Harry Potter e Voldemort.

- Oh, não pode ser. É tão tosco.
- O que foi, professor?
- Creio – declarou Dumbledore (…) – que, para passar, nos é exigido um pagamento.
- Um pagamento? – admirou-se Harry. – Temos de dar algo à porta?
- Sim – confirmou Dumbledore. – Sangue, se não me engano.
- Sangue?
- Bem te disse que era tosco – insistiu Dumbledore num tom desdenhoso, mesmo desapontado, como se Voldemort tivesse ficado muito aquém do nível que esperara. – Como tenho a certeza de que já compreendeste, a ideia é que o inimigo tem de se enfraquecer para poder entrar. Mais uma vez, Lord Voldemort não conseguiu compreender que há coisas muito mais terríveis que o sofrimento físico.  

O final é o momento mais alto desta saga. É agora que Rowling coloca o seu mundo de pernas para o ar, não nos deixando ter qualquer vislumbre sobre como será o próximo livro, e sim, todos ficámos completamente de boca aberta com aquelas poucas linhas em que Rowling deixa sem respiração o mundo adolescente que ela “pôs a ler”.

Uma vez mais digo: mesmo que tenham visto os filmes, leiam esta saga!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Procuram-se Leitores Beta!

Olá a todos! 

Hoje fui contactado pela Liliana Lavado, uma escritora nos tempos livres, que procura leitores que a ajudem com espírito crítico e muita vontade! Como é óbvio não poderia deixar de ajudar à divulgação desta iniciativa.

Se estiveres interessado e quiseres saber mais, clica AQUI.





"É chegada a altura de enviar os meus livros para Leitores Beta ávidos por ler uma nova história e prontos a opinar sobre tudo o que lhes passa pelos olhos.
Preciso de procurar leitores Opinadores para criar o meu pequeno exército de Betas. A missão é simples: conquistarmos boas histórias."

 

Boa Sorte Liliana!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CLUBE DE COMBATE


Autor: Chuck Palahniuk

Título original: Fight Club


A primeira regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate.
A segunda regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate.

Todos nós temos filmes que nos marcam. Eu também tenho alguns como Se7en, Os Condenados de Shawshank, Inception, A Lista de Schindler, Uma Mente Brilhante ou ainda The Prestige (adaptação do livro que já comentei aqui), entre muitos outros. Mas há um filme que me marcou mais do que qualquer outro, o meu preferido, Clube de Combate. Quantas vezes vi o filme? Não sei, muitas. Adorei de tal forma o filme que sempre tive o medo da desilusão em relação a ler o livro. Mas um dia tive de arriscar.

Numa linha temporal suficientemente longa, a taxa de sobrevivência de toda a gente cai para zero.

Clube de Combate é daqueles livros que nos fazem pensar, que nos fazem rir enquanto o autor nos está a esmurrar com a sua análise. Narrado de forma crítica, forte, irónica, Palahniuk escreveu algo completamente diferente do que costumo ler, na realidade nunca li nada parecido, mas desde o início o livro agarrou-me e não consegui parar, algo espantoso para quem conhece o filme de forma tão profunda quanto eu.
O narrador, personagem fantástica, mostra-nos a sua transformação de consumista e resignado até se tornar num “discípulo” de Tyler Durden, e tal jornada é uma lição de vida, crua, dura. Claro que a filosofia de Tyler não será certamente do agrado de todos, não é isso que está em causa, o que realmente importa é como essa filosofia é importante no livro, como encaixa perfeitamente e nos embala por acontecimentos que deixam qualquer um de boca aberta. Preparem-se para uma viagem única.

Este livro, tal como o filme, vive da ligação entre o narrador e Tyler, tal como o mundo vive da relação produtor/consumidor. Tyler produz e o narrador consome… o narrador, um homem que não consegue dormir, olha para Tyler, e para a sua forma de viver, e consegue definitivamente fugir do que o consumia, desligando-se de tudo, conseguindo dormir. A forma como o narrador olha para Tyler está sempre presente na sua escrita, como o admira e o porquê de desejar ser como ele: forte, decidido, admirado, livre. Tudo isto enquanto nós não percebemos se Tyler é um Herói ou Vilão. Será possível ser ambos no mundo em que vivemos?
Só quando perdemos tudo, somos realmente livres para fazer tudo. Primeiro temos de perceber, não recear, perceber, que um dia, iremos morrer.
E o Tyler liberta as pessoas...

A tua vida é isto e está a chegar ao fim, um minuto de cada vez.

Palahniuk consegue ainda criar uma forte crítica à sociedade, ao que a movimenta de forma global, e ainda aponta o dedo à mentalidade consumista e resignada das pessoas. Nós vemos as desgraças de outras pessoa e preocupamo-nos, mas apenas uns segundos, depois esquecemos. O que realmente nos importa é carros desportivos, ter televisão com centenas de canais, é ter abdominais definidos, casa com piscina… Tudo o que nos rodeia podia ser tão melhor... mas quantos trabalham para isso?

A publicidade faz com que esta gente ande atrás de carros e de roupas de que não precisa. Gerações inteiras têm estado a trabalhar em empregos que odeiam só para poderem comprar aquilo de que, na realidade, não precisam nada.

A forma como o narrador se liberta do mundo, que o observa com olhos depreciativos, passa por várias etapas e uma delas é no mínimo angustiante se realmente pensarmos sobre ela.  O narrador percebe que numa conversa, a pessoa apenas te ouve verdadeiramente, com toda a atenção, se achar que estás a morrer. Nessa altura, perante a morte, tudo deixa de ser importante e as pessoas ouvem-te e querem ajudar.Talvez nessa altura seja tarde demais...
Ele sabe isso porque o Tyler também o sabe.

Este não é um livro para se simplesmente ler. Esta obra pede-nos para pensarmos, para decidirmos, tomarmos uma posição tal como a toma a personagem Hessel que quer ser veterinário (quem já leu ou viu, sabe do que falo). Pede-nos para sermos algo mais, para não irmos atrás do que consideramos a perfeição intelectual ou visual, para não nos limitarmos a ouvir e acreditar, a votar de olhos fechados, a querermos apenas ser famosos como se tal fosse a única concretização pessoal possível. Para não nos agarrarmos ao que não precisamos. Há algo muito mais importante, e não pode ser comprado.

…as coisas que dantes possuías, agora possuem-te a ti.

Para finalizar, o livro não foi uma desilusão, foi antes um dos melhores que alguma vez li. Um dos meus favoritos. O facto de já conhecer o filme destrói algumas surpresas, mas tal facto é compensado com outros pormenores que este livro nos dá e que não aparecem na adaptação. Os desenvolvimentos estão muito idênticos e conseguimos identificar as situações entre as duas obras, e como tal torna-se impossível não visualizar Brad Pitt a dar-te as boas vindas ao Clube de Combate. Há obviamente algumas diferenças, mas sem que se destrua o significado do que está a acontecer. O final é diferente na adaptação, e aqui o significado também, mas até neste ponto não consigo perceber qual gostei mais.
Resumindo: um livro essencial a qualquer um, seja qual for a filosofia de vida. Personagens fantásticas, uma história diferente de tudo. Uma mensagem a cada capítulo, um livro para reler. Se tiver em conta que se trata de um livro que está à venda por 5 euros, então foi a melhor compra literária que alguma vez fiz. 

E porquê? Porque no Tyler nós confiamos...