quinta-feira, 8 de maio de 2014

O TINTUREIRO FRANCÊS


Autor: Paulo Larcher



Sinopse: Nos finais do séc. XVIII, o Marquês de Pombal viu-se a braços com um fracasso na sua política de regeneração industrial: a Real Fábrica de Panos, a menina dos seus olhos, apesar de todos os esforços e despesas não consegue produzir tecidos com a qualidade dos importados. Decide então convidar um tintureiro francês para vir a Portugal ensinar essa grande arte que, à época, fazia a riqueza e o prestígio das nações europeias.
O artista eleito foi o polémico Stéphane Larcher, que mal chega começa a revolucionar práticas e comportamentos. Um ano depois, cores nunca vistas vêm à luz e tecidos até então desconhecidos brilham em todo o seu esplendor. Ao partilhar a sua arte secreta com os portugueses, Stéphane sabia estar a arriscar a vida, a reputação e a fortuna. Mas ninguém o avisou que também comprometia fatalmente o próprio coração.


Quando a editora Saída de Emergência anunciou esta coleção, chamada "A História de Portugal em romances", fiquei imediatamente curioso para a começar a ler, e a sinopse deste livro pareceu-me bastante interessante. Focado no pós-terramoto, o escritor tenta aprofundar certos temas que raramente lemos, pois a grande maioria dos livros sobre esta época, focam-se apenas na forma como Portugal tenta recuperar da catástrofe. E assim, o enredo foca-se nas intrigas e nos romances, sendo para tal necessário boas personagens.

Olhando globalmente para o livro, o escritor utiliza uma escrita simples mas muito bem conseguida, sem deixar de detalhar o que é importante, oferecendo ao livro um ritmo agradável, para que desde o início seja claro que estamos perante um romance. Os diálogos são interessantes e inteligentes, apesar de existir em alguns momentos a noção que o diálogo pode estar ligeiramente forçado para que seja dito algo mais do que aconteceria normalmente. No entanto, esta sensação dependerá de cada leitor e torna-se em algo secundário pois as personagens estão bem conseguidas e "roubam" a atenção do leitor com facilidade. As personagens, que na maioria fogem ao estereotipo dos romances desta época, são diversificadas e gostei da forma como o autor mistura personalidades da nossa História com outras de ficção, sendo que existe uma personagem, que apesar de secundária, consegue dar uma lufada de ar fresco com a sua determinação e capacidade de ver o progresso que deve ser feito.

Em termos históricos é difícil dizer-vos se o trabalho do autor está fantástico, pois não tenho o conhecimento profundo necessário para o afirmar, mas apreciei bastante a forma como o autor explorou a sociedade portuguesa numa fase em que tanto era preciso fazer, onde muitos viam oportunidades financeiras e a cadeia de interessantes aumenta, com muitos a serem influenciados, e onde uns sairão vencedores e outros derrotados. Portugal era uma sociedade deslocada, sem rumo definido e totalmente dependente da economia externa, tal nota-se no livro, e está aqui a base para muitas das decisões das personagens, o que deixa a ideia que o livro está bem sustentado.

Por fim, falamos do enredo. Sendo, essencialmente, um romance cheio de intriga, pois política e dinheiro estão constantemente presentes nestas páginas, o enredo é inteligente e bem montado por forma a deixar-nos "agarrados" até ao fim. O romance é bem construído e foge a muitos dos clichés usados neste género, com um final interessante e que agradará aos leitores. Mas, para mim, este enredo consegue usar muito bem uma simples ideia: a de que mesmo perante uma catástrofe, onde a solidariedade é necessária mais do que nunca, existe sempre quem consiga olhar para tal situação como uma oportunidade para lucrar, "pisando" o que sobreviveu (sempre foi, e sempre será assim), juntamente com a ideia de que as pessoas nunca estão preparadas para uma grande evolução/revolução. Estamos construídos socialmente para usarmos constantemente a frase "sempre se fez assim", e é nesse momento que nos estamos a impedir de algo melhor.

Globalmente, este é um bom livro que se lê sem esforço e que me agradou por explorar uma parte da nossa História que nunca tinha lido antes. A grande maioria dos livros desta época foca-se no Marquês de Pombal e a sua inovadora visão do futuro, mas neste caso o livro foge a esse caminho e consegue "sobreviver" por si só, sendo esse o seu mérito. Com personagens interessantes e um olhar singular à nossa sociedade pós terramoto, este livro é um bom começo para uma coleção que quero continuar a ler. Parabéns à editora por apostar em algo que é "nosso" mas que consegue ser diferente do que existe. 

Luís Pinto

4 comentários:

  1. Uma opinião muito interessante e objetiva. Já tinha os olhos neste livro e ainda mais agora.

    Boas leituras.

    ResponderEliminar
  2. Olá :)
    Confesso que nunca li nenhum romance histórico, e sinceramente é uma das coisas de que tenho pena, mas que gostava de corrigir :) Também não sabia da existência desta colecção da Saída de Emergência, que me parece juntar o útil ao agradável, porque a história de Portugal que um dia em pequenos aprendemos começa a perder-se.
    Boas Leituras

    Rosana
    http://bloguinhasparadise.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  3. Joana Fragosomaio 09, 2014

    Não conhecia a colecção mas aplaudo a ideia porque a história portuguesa deve ser divulgada. Vou ler de certeza. Ainda bem que a feira está a chegar!

    ResponderEliminar
  4. Olá, Luís. Gostei bastante desta análise e até já estava de olho nesta coleção. Agora na feira vou aproveitar para comprar pelo menos este primeiro. Estás a pensar ler o próximo pelo que vejo. Vou estar atenta! Neste livro acho que vai ser interessante porque também não conheço bem esta época após o terramoto e não se trata apenas de uma história sobre réis.

    ResponderEliminar