sexta-feira, 3 de maio de 2013

A GUERRA DAS SALAMANDRAS


Autor: Karel Capek

Título original: Valka s Mloky


O Homem descobre uma espécie de salamandra altamente inteligente e aprende a explorá-la, escravizando-a, mas algo corre mal…
Na sua ânsia para desenvolver ainda mais as capacidades das salamandras (a fim de as poder usar), o Homem vai dar-lhes todas as armas necessárias para que elas estejam em posição de desafiar o lugar do ser humano no topo da cadeia animal. A guerra está iminente… e a destruição do ser humano é uma realidade…
Ao longo da obra assistimos à satirização da ciência, do capitalismo, do fascismo, do jornalismo, do militarismo, e até de Hollywood, mas ainda assim o autor dá-nos uma ficção num tom humano e cómico, mais do que fantástico
.

Este livro é fantástico! Após acabar a sua leitura, é difícil não fazer comparações com o livro 1984 de Orwell (e reparem que tal comparação é um elogio, pois 1984 é, talvez, o meu livro favorito - e sobre o qual ainda não falei no blog), mas esta comparação não dura mais do que alguns segundos, visto que a narrativa é muito diferente. Esta obra de Capek começa bastante soft e, muito lentamente, torna-se mais negra. No entanto, existe sempre uma parte cómica que define o livro: uma satarização que expõe o ridículo que existe em alguns dos conceitos mais comuns na nossa sociedade e natureza.

O livro aponta o dedo às fraquezas e desequilíbrios do Homem, desde a arrogância, racismo, opulência dos ricos, a confiança dos cientistas e dos crentes, etc... Bem montado, com alguns saltos temporais, a narrativa é brutalmente inteligente, e uso a palavra brutal porque, para mim, é a melhor forma de descrever como o autor nos expõe certos pensamentos.

Não me é fácil falar muito deste livro sem revelar a história, mas mesmo sem o fazer, a verdade é que a história não é o principal. O segredo desta obra está na forma como é escrita, como é contada, e como critica a nossa necessidade de expansão, de conquistar, e principalmente, critica e goza (no bom sentido da palavra) com a ineficácia da política e que nunca nos levará ao que podemos alcançar. Infelizmente, não há uma força moral dentro de nós que consiga apagar os instintos que a Natureza nos deu em todos estes anos de evolução, e por isso, os erros de agora são os de antigamente, e também, provavelmente, os do futuro. E como isto, temos um livro que apesar de escrito na década de 30, continua muito atual.

As personagens estão bem construídas e servem para o autor nos mostrar que há sempre pessoas com moral, e outras que nunca o tiveram, ou pelo menos, se esqueceram porque outros valores se levantam. A responsabilidade é de todos, políticos e povos, todos têm alguma culpa, e todos ajudam para o bem e para o mal, com mais ou menos força.

O interessante é que o livro consegue sempre tornar-se mais negro, mas ao mesmo tempo existe uma parte cómica. A obra tenta despertar-nos para o problema da pobreza, do excesso de produção e da má utilização dos recursos e do que produzimos. Se olharmos para isto tendo em conta quando o livro foi escrito, vemos que estamos a cometer os mesmos erros, e que sabíamos que os iríamos cometer. E tudo isto fica demonstrado no último capítulo, de longe o mais marcante, e que resume indiretamente todas as ideias do autor. Aliás, quase toda a crítica existente neste livro é indireta, parcialmente escondida na história, mas facilmente encontrada.

Em relação ao enredo, existe uma originalidade muito interessante mas que parece ter uma base quase ridícula, e essa "ridicularidade" ajuda a passar a critica, quando vemos o resultado no enredo. No início parece um livro normal, que irá tocar em certos pontos, mas não notei de imediato a força que esta narrativa teria. É, no geral, um enredo inteligente e que me fez ler calmamente, sem parar. Claro que o livro não é perfeito para o meu gosto e gostaria de ver algumas personagens mais desenvolvidas, mas percebe-se que não era o objetivo do autor. Gostava de ver outros temas debatidos, mas trata-se de um livro quase com cem anos, e a realidade é outra, mas no globa, é um livro mesmo muito atual.

Tentando não revelar nada sobre a história, resta-me dizer que quem goste do género irá adorar este livro. Para mim não teve o impacto de 1984, mas a verdade é que nenhum outro livro o teve. Capek oferece-nos uma obra inteligente, uma poderosa visão e por isso, é um livro a ser lido. Um livro para ler, e um dia reler...

Luís Pinto

9 comentários:

  1. Adorei a tua opinião. Gostei mesmo muito. Já li este livro e é mesmo fantástico. A tua opinião diz tudo. É um livro a ser lido.

    Boas leituras!

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  2. Parabéns pela excelente análise, Luís. Como sempre a elevar o nível nos grandes livros. Este é um grande clássico e um dos meus livros favoritos. Percebo a sua dificuldade em não revelar a história, saiu-se muito bem nesse aspecto, e fico à espera da opinião ao 1984.

    Boas leituras.

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  3. Não conhecia mas parece ser muito interessante. Gostei da sinopse e da tua análise. Muito boa :)

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  4. Olá Luís.
    Fiquei bastante curioso com esta opinião. Acho que nunca vi o livro nem li nada deste autor. Vou dar uma vista de olhos e meter na lista para a feira que nunca mais chega.

    Boas leituras e continua.

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  5. Carlos Fonsecamaio 04, 2013

    Excelente comentário sem dúvida. Um livro para ter debaixo de olho e que não conhecia. Parece-me uma excelente escolha.

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  6. Carlos Silvamaio 04, 2013

    Bom dia, Luís. Li este livro há muitos anos, versão inglesa, e é um livro imortal. Merece ser lido, divulgado e o Luís conseguiu aqui uma excelente análise. Parabéns pelo texto e pela escolha porque é um livro obrigatório dentro do seu género. Infelizmente muito pouco conhecido.

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  7. Estive a dar uma vista de olhos pela net e encontrei algumas opiniões que consideram este livro como uma obra prima. Obrigado pela divulgação. Ia passar-me ao lado.

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  8. Gonçalo Pereiramaio 08, 2013

    Parabéns! que grande texto que fizeste. É impossível não ficar convencido.

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  9. Obrigado a todos. Fico à espera de opiniões a este grande livro.

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